A economista Ana Toni, diretora executiva da COP30, realizada em Belém, avalia que o setor agropecuário brasileiro marcou uma virada significativa no debate global sobre mudanças climáticas. Segundo ela, a agricultura ingressou tardiamente nessas discussões, mas o evento no Brasil, onde o agronegócio é um pilar econômico, conferiu ao setor um protagonismo inédito em conferências da ONU. Em entrevista recente, Toni destacou iniciativas como o Raiz, um acelerador para restauração de terras degradadas, e a união de mais de dez países em programas de financiamento para essa finalidade. Além disso, apontou o avanço na agricultura regenerativa tropical, com 110 nações se comprometendo e alocando US$ 9 bilhões em recursos, o que representa uma escala global sem precedentes para o tema.
Outros progressos mencionados por Toni incluem discussões sobre rastreabilidade de produtos, com adesão de 28 países, e iniciativas de combustíveis sustentáveis, envolvendo 29 nações, posicionados como opções de transição energética. Ela acredita que essas ações indicam uma mudança de fase, com foco em implementação prática, projetos concretos e união internacional para combater as mudanças climáticas. O crescente interesse internacional em investimentos sustentáveis, como em agricultura, florestas e pecuária com tecnologias de reflorestamento, impulsionou essa transformação. Para Toni, o agronegócio brasileiro soube aproveitar a visibilidade da COP30, passando de uma postura defensiva para apresentar soluções baseadas em ciência.
Apesar dos avanços, a economista reconhece tensões internas no setor brasileiro, descrevendo “dois agros”: um que adota soluções e reconhece os impactos climáticos, e outro mais alinhado a discursos partidários e preocupações legislativas. Na visão dela, a conferência deixou claro que o agro pode ser mais solução do que vilão na questão climática. O desafio agora, segundo Toni, é manter o alinhamento e fortalecer o segmento que prioriza a sustentabilidade, especialmente com a presidência da COP em 2026 no horizonte, para garantir a sobrevivência do setor diante das mudanças ambientais.